Canção triste

As horas do relógio

Escorrem parede abaixo

Como num quadro de Dali

O coração
tum-tum
tum-tum
Derrete em um compasso

Exasperado

S.U.S.P.I.R.O

Hoje
não é de amor

Aqui jaz meu pai

……………………….

No jazigo do meu peito

Andorinha não faz verão
Nem ninho

Longe,
mas nem tanto,
voam pássaros no azul dos

céus (olhos)
Urubus
Prontos pra comer meus restos

Des-pe-da-ça-dos

O vendedor de enciclopédias

Em sua casa, a enciclopédia passava de geração para geração. No domingo após o almoço, todos se reuniam em torno do avô que lia algum verbete com animação. Depois os meninos jogavam bola no quintal de terra batida. À noite, antes de dormir, Teófilo olhava as estrelas e depois adormecia recitando para a mãe tudo o que lembrava do verbete do dia. 

Não completou o segundo grau porque a única escola da cidadezinha em que morava só lhe possibilitou concluir o que chamavam de ginasial. Porém, devido a tudo que as enciclopédias lhe ensinaram, conseguiu com facilidade um trabalho na prefeitura municipal de Nova Horizontina.

De segunda à sexta, batia o ponto das 8hs às 17hs como oficial escriturário, mas seu domingo era sagrado: ia de porta em porta oferecendo enciclopédias. Gostava de ir antes do almoço, pois assim as famílias poderiam ler juntas pelo resto da tarde. Pelo menos era o que ele imaginava. 

Tinha um semblante amigável. Usava o sorriso bobo e inocente para se aproximar dos clientes. Ajeitava os óculos fundo de garrafa e explicava porque era muito melhor pesquisar na nova edição da Barsa do que no Google. “Veja essas fotos do Cerrado! Olha como é muito melhor segurar o livro do que ficar olhando pela tela do computador. Sente aqui a folha, d. Maria. Isso é o conhecimento na palma da sua mão!e passava a mão pela página da enciclopédia oferecendo à senhora simples da vizinhança a mesma sensação.

D. Maria, uma senhora negra de mais de 70 anos era uma das únicas que lhe atendia. Geralmente, as pessoas preferiam as testemunhas de Jeová na sua porta do que o jovem rapaz já um pouco calvo. Ela sempre lhe ouvia com paciência e repetia “Ah, meu filho, eu não sei ler. Quando quero saber alguma coisa, pergunto em voz alta pro telefone e ele me responde em voz alta também. Foi meu neto que me ensinou.”

Outros vizinhos compraram vez ou outra algum volume pela consideração que tinham com o avô do rapaz, mas já havia algum tempo que ninguém mais lhe atendia..

Certo domingo, já passava da uma da tarde, ninguém havia lhe aberto a porta. Sentou-se cabisbaixo no meio-fio da calçada, abraçado  a um volume. O sol estava quente e percebeu uma figura à sua frente. Era um garoto miúdo, sujo e faminto. “Tem um trocado, tio?” Revirou os bolsos em busca de alguma moeda. Em vão. Percebendo a fome do menino, levou-o ao boteco do seu Sebastião e lhe pagou um lanche fiado.

“Tio, que livro é esse?” 

“É uma enciclopédia” 

O menino fez cara de quem não entendeu. Então, Teofilo remendou –  “É um livro que explica as coisas do mundo”.

“Todas as coisas?”

Teófilo olhou para o volume que tinha em mãos:

“Bom, esse é sobre todas as coisas que começam com a letra C”

“Lê uma coisa para mim, tio?” – pediu o menino enquanto bebia o resto do Guaraná.

Animado, o rapaz abriu uma página qualquer e começou “O Cerrado é considerado o maior bioma da América do…”

 “ Tio – interrompeu o menino – como assim bioma?”

Teófilo parou. Examinou aqueles grandes olhos amendoados. Na boca faltavam alguns dentes e outros já estavam apodrecidos. Não tinha reparado muito no menino e percebeu que devia ter uns 8, 9 anos, mas a feição lhe aparentava mais idade. Vestia apenas uma bermuda rasgada e tinha os pés descalços. Perguntou então com quem morava e ele respondeu que com a mãe e os irmãos num barraco perto do rio.

O menino engoliu o último pedaço de lanche, agradeceu e já ia indo, mas Teófilo mirou-lhe os olhos indagando: 

“Te vejo aqui no domingo que vem?”

“Fechado!” – respondeu o menino com um sorriso alegre.

Teófilo não oferece mais os livros de porta em porta, mas reserva os domingos para lê-los junto a Tiago, que desde então, nas noites de domingo, também recita para a mãe tudo o que aprendeu sobre o verbete do dia.

Clique

A gente nunca imagina quando a fotografia vai deixar de ser colorida.

Nem quando o sorriso alinhado estará para sempre cerrado.

o toque dos meus dedos no cabelo fino tomando café à mesa

é agora memória embaçada

rarefeita em versos

Nossos peitos não mais se encontram em abraço apertado depois de minhas longas ausências.

De quando em quando

surge a foto de um clique que durou um minuto

mas

que 

eu 

queria 

congelar

numa

E   T   E   R   N   I    D    A    D    E

Roda gigante

Entrei no brinquedo meio que obrigada. Eu nem estava na fila. Pelo menos nem sabia que estava. Entreguei o ticket pro carinha da entrada vestido de soldadinho de chumbo e me sentei sozinha na cabine para oito pessoas. Guardei a metade picotada do ticket no bolso de fora da mochila, junto com o fone de ouvido quebrado. Longe, a placa anunciava “a maior roda gigante da cidade, do estado, da América Latina”.

Meu braço sentia o metal gelado porque fiz questão de me sentar na ponta. Se estava ali, por vontade ou não, melhor viver a realidade, então. “Minha filha, a verdade é a verdade”, diria meu pai e também minha mãe. Afivelei o cadarço em torno da cintura, como mandava a instrução de segurança enquanto o soldadinho trancava a porta da cabine com uma imensa chave. Era antiga e tinha detalhes rebuscados com cor de vida amanhecida. “Se quiser parar a viagem a qualquer momento, respire fundo três vezes, reze para todos os santos e aprecie a vista: a roda só gira pra um lado”. Dito isso, apagou a vela de sétimo dia que segurava e marchou timidamente de volta a seu posto.

Aquilo começou a subir lentamente rangendo alto a metade esquerda do meu cérebro numa viagem que dava a impressão de durar três eternidades pai filho e Espírito Santo amém. Não tinha subido nem a metade do terço e eu me agarrava à mochila feito criancinha pequena assustada. No solo distante, meia dúzia de pessoas assistia alheia a cena.

Rangia rangia rangia cada vez mais alto agora no cérebro inteiro. Aquilo me dava uma dor de cabeça insuportável e eu só queria dormir, mas nem a pau que fecharia os olhos, pois queria evitar de ver. Conforme subíamos, o ar foi ficando rarefeito e perdi a oportunidade de respirar três vezes. Minha vista escureceu e senti o vazio passar o braço em torno de mim. Olhei assustada meio vesga e ele me disse que estava ali desde o começo. Era corpulento e forte e me envolvia quase toda quando me abraçava. Tive medo e fui afundando minha cabeça em seu peito até morrer de novo.

O céu de nuvens muito escuras e espessas derramou gotas grossas de chuva torrencial. Olhei pro céu e abri a boca. Muita água entrou e foi consumindo minha garganta-anta-anta até não borbulhar mais e eu morrer. Então começou a girar de novo e descer. O cadarço desamarrou e fiquei à própria sorte porque o vazio decidiu brincar de esconde-esconde. Ainda rangia muito os dentes e aquele bruxismo todo estava me deixando louca. Louca de vez! Foi quando escorreguei num pingo grande e caí da cabine. Achei que ia morrer mais uma vez, mas a barra da minha calça ficou presa na ferragem do trambolho.

De cabeça para baixo, as coisas pareciam melhores.

A calça rasgou e deixou à mostra as grandes feridas cheias de pus e sangue que subiam pelas pernas. Caí na cabine debaixo e quase morri, mas o vazio me aplicou a manobra de PCR e meu cérebro voltou a bater. Dei falta da mochila e comecei a chorar feito um bebê. Então o ele me botou no colo e ninou.

A viagem na maior roda gigante da cidade, do estado, da América, do planeta Terra acabou e aterrissamos em nome do pai filho Espírito Santo.

Entreguei o ticket pro soldadinho de chumbo, que me devolveu a metade picotada.

Da janela

Todos os dias me sento perto da janela

Os raios de sol penetram minhas folhas brilhantes 

Me nutrindo de luz

A luz é pra todos

Avisto 

minhas companheiras 

Árvores 

se banhando no mesmo brilho do  

Domingo claro e preguiçoso 

Só consigo ver o topo de suas cabeças

Porque as casas atrapalham 

a vista 

São muitas e moram juntas

verdejando o concreto

duro e 

Pesado.

Pássaros voam 

Pra lá e pra cá

Em cima delas

Performando

no céu gelado do inverno

Desejo estar ali,

Por um momento, 

E saber como é viver em

Comunidade.

Ana vem e borrifa água 

em minhas folhas

Acaricia algumas delas 

Me fala coisas com carinho 

Senta-se ao meu lado

Com as pernas à mostra

Nutrindo-se de

Sol

também.

Me alegro

Vivemos em 

Comunhão

Assimetrias

Eu tinha 9 pra 10 anos e estava tomando banho quando olhei pra minha barriga e percebi que era muito grande. Me lembro nitidamente da cena: a água escorrendo e descendo pela barriga grande e branca que não me deixava ver a vagina, nem as coxas.

Foi a primeira vez que senti nojo de mim.

Bem nessa época, minha mãe estava grávida da minha irmã caçula, que nasceu algum tempo depois. Me lembro claramente da cena de sua chegada na casa: minha mãe a segurando no colo, exibindo muito triunfante a nova criança.

Aquela cabeça redonda e careca me fascinava e ao mesmo tempo me amedrontava. Era difícil para alguém com minha barriga competir com aquele bebê alvo de olhos azuis. 

Eu definitivamente tinha perdido meu lugar no mundo. O mais gozado é que até aquele momento eu nem sabia que tinha um.

O bebê foi crescendo e eu também. Ela se tornou uma menina dócil e eu uma irmã mais velha dedicada. Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele, não é mesmo?

Mas ela nunca foi minha inimiga. Muito pelo contrário: sempre foi minha fã número 1. 

Eu a buscava no pré perto de casa. Quando me via, ela vinha correndo com sua lancheira e me abraçava, apertando seu cabelo loiro e cacheado contra minha barriga fofa. Depois, me dava a mão e voltávamos caminhando para casa e ela me contava sobre as coisas de seu dia pequeno de criança de 5 anos.  Me lembro de uma vez em que ela chegou da escola, devia estar na primeira série, e me mostrou o desenho que tinha feito de nós duas de mãos dadas dentro de um coração. 

Ela me amava.

Eu a amava de volta. 

Um dia, ela simplesmente virou adulta. 

Assim: do nada. 

Mudou até de país.

Hoje me contou que tirou essa foto e que nunca gostou de seu sorriso assimétrico.

Mas essa boca rosada em forma de coração, com dentes grandes e levemente tortinhos é o mesmo sorriso que adorava encontrar minha barriga redonda como a lua na porta do prezinho. 

É com ele que agora divido as preocupações da vida adulta e com quem há 26 anos divido as mesmas histórias de família. 

O amor está mesmo é nas assimetrias.

Você não voltou

Eu esperei

Ia dizer que chegou cesta

Nova

Ia dizer pro defensor 

Como você estava preocupado com a multa

Que queria continuar a vida

tinha me dito,

Thiago 

Te esperei 

Pra juntos contarmos à justiça

Que se não tem dinheiro pro tênis 

Quem dirá pra multa 

“De chinelo não pode entrar lá, dona”

E olhava pro chinelo surrado

Sujo

Como a roupa toda que vestia

Eu sei que você é asseado 

É que sabão em pó não limpa

Miséria

Esperei pra contar pro juiz 

Como apesar da vida dura

Há em você ainda

Doçura

Deve ser do tempo em que era criança 

E vender pano no sinal

Era só um jeito de ficar na barra da saia 

da Vó

Será que você sabe como é

Bonito

Com seus cabelos negros e sobrancelhas 

Espessas?

Andei aflita pelos corredores gelados da

Escola

Te esperei 

Mas você não voltou 

Te escrevo

Thiago

Porque queria te abraçar 

Te escrevo 

Te escrevo porque mereces 

Pelo menos a

Dignidade 

Da poesia.

Quando me olha

Me olha profundo

Tem a idade da minha irmã,

penso

“Liga no fórum pra mim, dona?”

Me olha

Lembro de minha mãe 

querer outro filho além de nós três 

Pede dinheiro pro gás

Outra cesta

Tem fome.

São olhos castanhos

bonitos como os lá de casa,

penso.

Está solto, 

porém as mãos 

Atadas

Mora em lugar algum

Dinheiro para a pena

Não tem 

Quando fala do delito

olha pra baixo

Alô, é do fórum?

pergunta a agente escolar

Ele tem que procurar um defensor público, 

então?

“Nem sei onde fica isso, dona?”

Olha de canto, 

já irritado.

Volta, amanhã, Thiago.

12h45 te esperamos pro almoço

Depois,

falamos com o defensor.

“E o gás, dona?”

Dinheiro não temos 

Vem pro almoço. 

Não esquece!

Me olha

mudo

Despedaçado

Baixa a cabeça e leva 

os pés sujos e maltratados

Vão para lugar

nenhum.

Podia ser meu irmão,

penso.

Meus olhos 

Choram.

Será que ele 

volta?

Água quente

Caía

Caía e molhava 

o corpo da mulher

Acariciava-lhe o couro cabeludo

Massageava-lhe levemente as costas cansadas

Descia pelo rosto e beijava-lhe a boca de lábios finos

A língua 

se punha para fora respondendo ao beijo

engolindo a água com vontade.

Lambia-lhe a nuca e o pescoço

buscando o colo macio

As pintas marrons já dilatadas

Deleitadas.

Escorreu até o bico rosado

parou ofegante
Gotejava.

O vapor subia até o teto

tomava as paredes

embaçava o espelho

Testemunhas oculares.

A água envolveu numa dança

circular

o abdome lunar.

Rodopiavam.

Entrou no umbigo e ali ficou

Represada

Como se tomasse fôlego.

Pele

Poros

Pelos 

Púbis

Tudo ardia.

No meio das pernas

fluídos e água se misturaram

Regozijaram-se

Moles

desceu preguiçosamente 

pelas coxas fartas

até os pés.

Num movimento de adeus, 

chupou-lhe ainda o dedão

causando arrepios.

Então

sumiu pelo ralo

Rarefeitas

Satisfeitas.