Em sua casa, a enciclopédia passava de geração para geração. No domingo após o almoço, todos se reuniam em torno do avô que lia algum verbete com animação. Depois os meninos jogavam bola no quintal de terra batida. À noite, antes de dormir, Teófilo olhava as estrelas e depois adormecia recitando para a mãe tudo o que lembrava do verbete do dia.
Não completou o segundo grau porque a única escola da cidadezinha em que morava só lhe possibilitou concluir o que chamavam de ginasial. Porém, devido a tudo que as enciclopédias lhe ensinaram, conseguiu com facilidade um trabalho na prefeitura municipal de Nova Horizontina.
De segunda à sexta, batia o ponto das 8hs às 17hs como oficial escriturário, mas seu domingo era sagrado: ia de porta em porta oferecendo enciclopédias. Gostava de ir antes do almoço, pois assim as famílias poderiam ler juntas pelo resto da tarde. Pelo menos era o que ele imaginava.
Tinha um semblante amigável. Usava o sorriso bobo e inocente para se aproximar dos clientes. Ajeitava os óculos fundo de garrafa e explicava porque era muito melhor pesquisar na nova edição da Barsa do que no Google. “Veja essas fotos do Cerrado! Olha como é muito melhor segurar o livro do que ficar olhando pela tela do computador. Sente aqui a folha, d. Maria. Isso é o conhecimento na palma da sua mão!” e passava a mão pela página da enciclopédia oferecendo à senhora simples da vizinhança a mesma sensação.
D. Maria, uma senhora negra de mais de 70 anos era uma das únicas que lhe atendia. Geralmente, as pessoas preferiam as testemunhas de Jeová na sua porta do que o jovem rapaz já um pouco calvo. Ela sempre lhe ouvia com paciência e repetia “Ah, meu filho, eu não sei ler. Quando quero saber alguma coisa, pergunto em voz alta pro telefone e ele me responde em voz alta também. Foi meu neto que me ensinou.”
Outros vizinhos compraram vez ou outra algum volume pela consideração que tinham com o avô do rapaz, mas já havia algum tempo que ninguém mais lhe atendia..
Certo domingo, já passava da uma da tarde, ninguém havia lhe aberto a porta. Sentou-se cabisbaixo no meio-fio da calçada, abraçado a um volume. O sol estava quente e percebeu uma figura à sua frente. Era um garoto miúdo, sujo e faminto. “Tem um trocado, tio?” Revirou os bolsos em busca de alguma moeda. Em vão. Percebendo a fome do menino, levou-o ao boteco do seu Sebastião e lhe pagou um lanche fiado.
“Tio, que livro é esse?”
“É uma enciclopédia”
O menino fez cara de quem não entendeu. Então, Teofilo remendou – “É um livro que explica as coisas do mundo”.
“Todas as coisas?”
Teófilo olhou para o volume que tinha em mãos:
“Bom, esse é sobre todas as coisas que começam com a letra C”
“Lê uma coisa para mim, tio?” – pediu o menino enquanto bebia o resto do Guaraná.
Animado, o rapaz abriu uma página qualquer e começou “O Cerrado é considerado o maior bioma da América do…”
“ Tio – interrompeu o menino – como assim bioma?”
Teófilo parou. Examinou aqueles grandes olhos amendoados. Na boca faltavam alguns dentes e outros já estavam apodrecidos. Não tinha reparado muito no menino e percebeu que devia ter uns 8, 9 anos, mas a feição lhe aparentava mais idade. Vestia apenas uma bermuda rasgada e tinha os pés descalços. Perguntou então com quem morava e ele respondeu que com a mãe e os irmãos num barraco perto do rio.
O menino engoliu o último pedaço de lanche, agradeceu e já ia indo, mas Teófilo mirou-lhe os olhos indagando:
“Te vejo aqui no domingo que vem?”
“Fechado!” – respondeu o menino com um sorriso alegre.
Teófilo não oferece mais os livros de porta em porta, mas reserva os domingos para lê-los junto a Tiago, que desde então, nas noites de domingo, também recita para a mãe tudo o que aprendeu sobre o verbete do dia.